Sexta-feira, 28 de Março de 2008

Descobrir um poeta é encontrar uma alma e uma época. É estanho e bom. Mas se esse poeta surge do passado longínquo rodeado de mistério e lenda, sua alma reaparece como uma flor desbotada que retoma viço e cor e a época oferece-se com um viver mais perto que se acusa.

Descobrir um poeta é tocar um homem. Porém, um homem ímpar no seu tempo, um ser total, sem sofismas nem fingimentos – umas mãos abertas a todos os ventos interiores. (…)

António Aragão

 

 

 

Nasceu na Madeira em 1662 e morreu em data desconhecida.

Era filho de Simão Gonçalves da Câmara e de D. Maria Correia.

Os dados biográficos são escassos. Sabe-se que nunca saiu da Madeira, entoava os seus poemas ao som da viola e esteve preso por “coisas de amor”.

 

 

 A 18 de Outubro de 1700 teve um filho, Félix Lucas de Carvalhal Esmeraldo. Este era presbítero do hábito de S. Pedro e a ele se deve a transcrição dos poemas do pai, num manuscrito de 626 páginas intitulado: Cithara de Aonio, poema erótico dividido em seis descantes e que, segundo Luís Marino, se encontra na posse de António Aragão Correia.

 

 

Há outro episódio curioso sobre este manuscrito. Segundo António Aragão, há dados que indicam que por altura do Terramoto de Lisboa (1755), este frade se encontrava retirado num convento, conseguindo salvar-se e também transportar o manuscrito.

 

 

O manuscrito também contém um longo prefácio de Lucas de Carvalhal e inclui a transcrição de alguns poemas dedicados a António de Carvalhal Esmeraldo.

 

Desconhece-se a data do seu falecimento.

 

Soneto

 

Belo Naris para quem guarda intacta

Arábia aromas e Pancaya olores.

Que eras nessa república de flores

Marco de gelo em campos de escarlata:

 

Emblema de jasmim, cifrada nata,

Brinquinho de diamante, alvo de amores,

Torre de Faro, ornada de esplendores,

Em dous mares de rosa, isthmo de prata:

 

Porém suspenda o rasgo e pluma errante,

Que nenhum epíteto hoje se atreve

Ser de tal perfeição cópia bastante.

 

Só quem cala, e te admira é que te escreve;

Pois sobre um ponto de rubi flamante,

És hua admiração de pura neve.

 

 

 Soneto

 

Pois me contento só de idolatrar-te,

Oh, Belisa, permite o querer-te,

Ou que não chegue ao menos a ofender-te,

Pois que em nada hei podido contentar-te.

 

De que podes por ora recear-te?

E que posso eu fazer com pretender-te?

Temes que venha acaso a merecer-te;

Porque insisto penoso em venerar-te?

 

Mas o muito que peno não me engana,

Nada espero; bem que por ti padeço,

Pois certamente em nada eras humana.

 

Não tem para alcançar-te as penas peço,

Que como eras em tudo soberana,

Desvario é cuidar que te mereço.

 

 

Bibliografia consultada:

 

ARAGÃO, António – António de Carvalhal Esmeraldo, Aónio: desconhecido e inspirado poeta madeirense que viveu na época de seiscentos. Das artes e da história da Madeira. Nº34, 1964. P.33-35

 

MARINO, Luís – Musa insular: Poetas da Madeira. Funchal: Eco do Funchal, [1959]. P.34-35.

 





publicado por BMFunchal às 16:40
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