Segunda-feira, 21 de Março de 2011

                POEMAS ZEN

 

Para poder caminhar através do infinito vazio

a vaca de aço deve transpirar.

*

A verdade é como um tigre que tivesse muitos cornos,

Ou então como uma vaca a que faltasse o rabo.

*

De tarde o galo anuncia a aurora,

Brilha o sol vivamente à meia-noite.

*

As palavras não fazem o homem compreender,

É preciso fazer-se homem para entender as palavras.

*

Se tirares água, pensarás que as montanhas se movem;

Se levantares o véu, verás a fuga das falésias.

*

Cantam à meia-noite os galos de madeira,

E os cães de palha ladram para o céu límpido.

*

Se acaso vires na rua um homem iluminado,

Não o abordes com palavras, não o abordes com silêncio.

*

Conduz o teu cavalo sobre o fio de uma espada,

Oculta-te como puderes no meio das chamas.

*

Há tantos anos vive o pássaro na gaiola

Que pode hoje voar por entre as nuvens.

*

Quando o peixe se move, turvam-se as águas;

Quando o pássaro voa, uma pena.

*

No fundo das montanhas está guardado um tesouro

para aquele que nunca o procurar.

*

As colinas são azuis por elas mesmas;

Por elas mesmas, brancas são as nuvens.

*

Sentada calmamente sem coisa alguma fazer,

Aparece a primavera, e cresce a erva.

*

Os rochedos levantam-se no céu,

O fogo brilha no fundo das águas.

*

Colhe flores, e as tuas vestes ficarão perfumadas;

Tira água, e a lua estará nas tuas mãos.

*

O vento pára, as flores caem, um pássaro canta

- a montanha conserva o seu mistério.

 

 

 

HELDER, Herberto - Poesia toda. Lisboa: Assírio e Alvim, 1981. p.261-262



publicado por BMFunchal às 13:34
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