Domingo, 12 de Agosto de 2007

"John Barrow, conhecido navegador e orientalista inglês, foi o fundador da Sociedade de Geografia de Londres e secretário do Almirantado, tendo prestado valioso auxílio às expedições de Ross, Franklin, Perry, etc.. As suas obras são ainda hoje lidas com interesse, destacando-se a Voyage to Cochinchina, onde a forma literária dá colorido e relevo ao cenário que escreve.

 

Quem diria que num livro, cujo título nos chama a atenção para o Oriente, se encontrasse um capítulo tão interessante sobre a Madeira?

 

Barrow aqui esteve em 1793 e, entrando o porto do Funchal de manhãzinha, escreve:

 

Com o alvorecer, gradualmente se vão dissipando os nevoeiros e o desenrolar do panorama é cheio de atractivos para um estrangeiro, pela variação do colorido e da novidade.

Na límpida baía vem mirar-se a cidade, escoante pela encosta, amparada aos lados por íngremes e escabrosas rochas vulcânicas, e contrastar singularmente com a branca casaria e a ridente vegetação que vai trepando ao mais alto da montanha.

Destacam-se, a cavaleiro, pelos socalcos do aclive, igrejas e capelas, vivendas e conventos, bizarramente dispostas, e casinhas minúsculas, perdidas a distância.

A espelhante baía coalhada de embarcações, os pequenos barcos dormentes na praia, o grande Ilhéu, lavado da maresia e montado de canhões dão ao conjunto um aspecto soberbo e grandioso.

O porto do Funchal é considerado bom ancoradouro, e em quase todo o tempo abrigado, apenas se torna perigoso quando sopra o rijo vento do sul, irritando a onda ao motim de vagalhões que arrastam à praia a mais bem ferrada embarcação, como acontece com o “Hindostan”, naufragado enquanto o comandante Makintosh estava em terra, sem poder ir socorrer a tripulação que toda pereceu.

(…)

Varas de porcos atraídos pelo engodo dos monturos vagueiam em liberdade pelas ruas, o que é causa de enfado para um estrangeiro, tanto mais que os suínos arrogam-se de tal familiaridade, dando, não raro, uma focinhada no transeunte a título de saudação.

Poucas habitações boas possui o Funchal, e essas, pertencem a vários negociantes ingleses que se acham estabelecidos com negócios de vinho, são casas bastante espaçosas mas não oferecem, no entanto, cómodos e conforto desejados. (…)

Contrariamente aos costumes dos outros países, onde os pedintes se apresentam com aparência que imprime compaixão, aqui os pobres usam o seu melhor fato na missão de mendigar, tendo observado um de cabeleira e espadim. "

 

 

 

SARMENTO, Alberto Artur – Ensaios históricos da minha terra: ilha da Madeira. 2ª ed. Funchal: Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1952. p.131-133.

Imagem:

Funchal In Barrow, John - A Voyage to Cochinchina in the years 1792 and 1793. London: T. Cadell and W. Davies, 1806. p.5



publicado por BMFunchal às 17:23
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