Quinta-feira, 09 de Agosto de 2007

Miguel Torga, pseud. de Adolfo Correia Rocha, nasceu em S. Martinho de Anta a 12 de Agosto de 1907 e morreu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995.

 

Na comemoração do centenário do nascimento de Miguel Torga, alguns textos sobre a Madeira no Diário, vol XIII.

 

(…) Funchal, 25 de Agosto de 1980 – Cá estou de novo, depois dum salto que juntou numa só duas aflições. A que sentia no Algarve e a que sinto aqui. Guardião lírico da identidade nacional, padeço tormentos sempre que a vejo ameaçada. e em ambos os sítios acontece. Chega a meter raiva. nos lugares cosmopolitas lá de fora, nenhuma invasão estrangeira altera o perfil nativo. Veneza é a mais italiana das terras italianas. nas nossas instâncias turísticas, pelo contrário, o alheio sobrepõe-se de tal modo ao caseiro que o configura. É um mimetismo trágico, que nos põe a falar, a pensar e a sentir como o invasor. Sei que há uma eternidade para além de todas as circunstâncias exógenas. Os pescadores de Câmara de Lobos ou de Lagos, como tais, hão-de ter sempre a mesma têmpera de homens do mar. Mas gosto mais deles com os estigmas portugueses bem à vista. Dão-me outras garantias de irmandade.

 

Eira do Serrado, Curral das Freiras, 26 de Agosto de 1980 – escreveu Nietzsche que para amar o abismo é preciso ter asas. Eu diria que basta apenas ser homem. Mas madeirense…

 

Funchal, 27 de Agosto de 1980 – Felizes, estes ingleses. Conseguem ter a arte de se instalar e estar sempre de visita nos melhores sítios do mundo.

 

 

Pico do Areeiro, 28 de Agosto de 1980 – A Madeira que eu amo verdadeiramente, que não me canso de admirar, que não tem comparação com outra qualquer realidade geográfica minha conhecida. Que se não deixou corromper por nenhum turismo, que se mantém ciclópica, abissal, rebeldemente estéril e inacessível. Que transmite aos sentidos o espanto e o calafrio que despertam as coisas primordiais. Que não cabe nos olhos que a vêem e nas palavras que a descrevem. Que é uma espécie de alucinação da natureza.

 

Porto Moniz, 29 de Agosto de 1980 – Lembrar-me eu que podia poderia ter morrido sem conhecer os caminhos de assombro que vêm dar a esta terra! E pensar depois que é quase certo que nunca mais os tornarei a ver…

 

(…)

Funchal, 31 de Agosto de 1980 – Acabaram-se os sete dias de sortilégio. Antes de partir, encho os olhos até onde posso desta realidade geológica que tanto me faz lembrar o meu Doiro amado, pela graça suplementar da cultura que foi acrescentada à beleza silvestre. Aqui como lá, a mão laboriosa soube humanizar a rude paisagem natural sem a desfigurar. O que era majestoso e belo depois de granjeado.

já quase esquecido dos tapetes persas que pisei com pés de caçador, dos criados portugueses que só queriam entender inglês, da futilidade dos casinos e do folclorismo turístico, é o milagre dos abismos povoados , das levas de água conduzidas, das grandes ravinas amanhadas que levo na retina maravilhada e agradecida è tenacidade epopeica de irmãos de sangue que transformaram, e continuam a transformar dia a dia, uma ilha de lava convulsionada num presépio de vida florida de esperança.

 

(…)

TORGA, Miguel – Diário. Vol. XIII. Coimbra, s.d. p.147-151



publicado por BMFunchal às 12:11
mais sobre mim
Agosto 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

13
14
15
16
17
18

19
20
22
23
24
25

26
27
29
30
31


links
pesquisar neste blog